27.4.14

Pedido de rede sem censura "rouba" a cena da NetMundial

Um pedido de uma rede sem censura roubou as cenas da NetMundial e da aprovação do Marco Civil no Brasil na última semana. No discurso da ativista de direitos humanos, a nigeriana Nnenna Nwakanma, a defesa do uso da internet para propagar a paz, e não a guerra. O grito de liberdade para se dizer o que se pensa, sem censura ou sanções. E, em um ambiente democrático ouvir argumentos e opiniões contrárias.
A entrevista concedida por Nnenna ao Link, do Estadão é ótima e serve de reflexão para quem pensa, usa ou trabalha com a internet. Gostei da abordagem da ativista, que representou a sociedade civil na abertura do evento.
Mas acho que dá espaço pra pensar muito além. Porque a internet não é só palco, instrumento. É um espelho, um reflexo. As redes sociais propagam com velocidade absurda as discussões que nascem naquele ambiente, mas repercutem com a mesma intensidade o que já está instalado fora dele ou o que vai aflorando na cotidiano.
Acabaram-se os limites. Não se fala há muito tempo entre o real e o virtual. Entre a vida que temos sem internet e a que temos na internet. Porque tudo está junto e misturado na expressão do que somos, do que preferimos, com o que nos identificamos ou até do que nos escondemos.
Vale, mais do que nunca pensar global no sentido intrínseco do termo. Na função e efeitos da internet, de suas possibilidades e práticas para o mundo desigual dos países emergentes, mas de franca expansão tecnológica e no mundo de África, sem acesso e meio a ditaduras e miséria social. Mas vale pensar no nosso papel, como cidadão integral, dentro ou fora do espelho.


6.4.14

Um instante, Markun...

É um formato interessante de contar a história.
Mas não é novidade na TV, pelo menos para os que nasceram antes dos anos 1960. O bom e polêmico Flávio Cavalcanti apresentava esse quadro em seu programa na extinta TV Tupi.
Eu adorava assistir e, ao vivo, era um risco de ousadia. Lembro de uma entrevista com Dom Pedro I, quando o ator (que lembro muito bem quem é, mas não direi) esqueceu o texto.
Flávio mudava a pergunta e nada. O sujeito todo paramentado no palco e totalmente travado.
Lá pela quinta tentativa, ignorando os apelos de Dom Pedro, que pedia "mais um momentinho", Flávio o expulsou solenemente do palco, pedindo desculpas ao público - platéia e telespectadores de casa, pela "falha" do ator. #tenso.
Portanto, vale o crédito ou referência ao comunicador, não é, Paulo Markun?

Entrevistas com mortos? Canal Brasil exibe projeto teatral de Paulo Markun

1.4.14

#tudodeBRA pra lá ele

Mal entrou no ar e a série de filmes que lança o novo posicionamento do Banco Bradesco já está dando o que falar.
Para a WMcCann, que tem como defensor e porta-voz o célebre Washington Olivetto, "Tudo de BRA pra Você", que usa a hashtag #tudodeBRA como conceito para assinar a campanha publicitária significa tudo de bom.
Nas locuções de Lázaro Ramos, Maria Gadú, Otaviano Costa e Luiz Melodia nos filmes, o tal BRA pode ser desde o "bolinho da mamãe" até o "gostosão da escola", passando por um "fim de tarde com os primos" ou "um brigadeiro".
Hum. Entendi. Não, não entendi.




Entendi que estamos no ano da Copa do Mundo FIFA e quem patrocina o evento é o arquiconcorrente Itaú. Entendi, porque Olivetto se adiantou em explicar, que BRA vai estar nos placares nas arenas por todo o país e que todo mundo lá de frente pra TV de 50" entre uma e outra cerva, vuvulezas talibãs, apitos, pagode e a turma de sempre enrolada na bandeira, vai associar de pronto: BRA = BRASIL = BRADESCO = Tudo de bom = bolinho de mãe = dar uma desligada = aprender = gente boa = chá com os amigos = etc = etc. Hum. Me BRAta um aBRAcate, como diria uma amiga.
Posicionamento de marca é um troço complicado. Porque tem que representar, de fato, a marca. Sem rodeios e meias-palavras. Porque tem que transformar o intangível em tangível.




Eu só enxergo o intangível nessa campanha, numa boa. Com todo o meu respeito a Olivetto.
Achei uma grande, uma enorme bobagem. Francamente, publicitariamente #tudodeBRA não quer dizer absolutamente nada. A não ser, claro, a sigla do país no placar e a abreviatura do Bradesco. Basta para posicionar um Banco? Claro que não. Vende seus atributos, mesmo os intangíveis? Muito menos. É forçar demais transformar ou desejar "tudo de BRA pra você" em momentos bons da vida.
Mas, vamos lá, meu povo! Afinal, é a Copa no BRA (não seria no Brás?). Bora de BRA, de BRE, de BRI, de BRO, de BRU.
Assistam, quem sabe (assim espero) vocês discordem de mim. Leiam os comentários, alguns risíveis.

E, por favor evitem as rimas.

26.10.12

Quando Domingo Chegar...

Chico Buarque de Hollanda é blindado a paródias, comparações, analogias. Mas não pude deixar de lembrar da letra de Quando o Carnaval chegar ao me deparar, nos últimos dias, com situações pra lá de tensas entre "amigos" do Facebook por conta das preferências ou intenções, eu diria, para este pleito eleitoral em Soterópolis.
A cortesia, a "amizade", a cumplicidade, a educação e a etiqueta que fazem da rede uma rede social de pares com afinidades culturais, pessoais, profissionais, de mútua compreensão e "ouvidos" atentos aos demais, esfacelaram-se.
Li discussões públicas e acaloradas, não daquelas que amigos de torcidas de futebol, de mesas de bar, de encontros casuais em padarias, botequins e babas de praia praticam no dia a dia. O que li foram ofensas pessoais, defesas a seus candidatos a prefeito repletas de ironia e sarcasmo, xingamentos e até, para minha absoluta surpresa, ex-pares e companheiros de lutas e práticas políticas desrespeitarem e desconsiderarem anos a fio de grandes amizades e companheirismo.
O que ficará, então, depois que o domingo chegar? E passar?
Olá, como vai, querida (o), vamos ali tomar uma, que tal um cinema, um pagodinho, um baba, uma praiazinha?
No que que cabe a mim neste rol de ofendidos (e aproveito para me desculpar se, por acaso, ofendi a alguém) ou, minimamente, surpresos e sensibilizados restará a saída pela tangente.
Entro sim, numa boa discussão e demoro a sair. Uso e sempre usarei uma rede pessoal na internet para expor pontos de vista e provocar mesmo a discordância e a polêmica. Me entendo como uma cidadã política e não vejo nada demais em exercer publicamente este papel. Compartilhei angústia, decepção, desalento, expus minhas motivações para dúvidas das escolhas e medidas e sempre esperei, não um confronto, mas o convencimento do contrário.
Que tive, em alguns momentos. Tive bons embates que me trouxeram mais dúvidas ou mais reiterações de impressões. Sequer revelei publicamente meu voto nem fiz campanha, uma vez que optei (e novamente assim será no domingo, pelo voto de exclusão).
Nunca me referi a ninguém, publicamente, a não ser aos próprios candidatos ou ao mainstream que os exaltava ou esculachava.
Por isso acho, mesmo, imperdoável, que um comentário que contraria uma defesa escrachadamente interessada seja desrespeitado com citações nominais e, a partir delas, descambe em ofensas pessoais. E, quando digo, pessoais, digo muito, mas muito pessoais. Daquelas que ofendem pessoas com quem compartilhamos offline toda uma vida e que, no meio da baixaria, deixam de lado o fato de que lhe conhecem para além de uma lista de comentários compartilhados.


Os candidatos que disputarão domingo as eleições para Prefeito de Salvador valem isso? Suas propostas para tirar esta cidade da lama (que é, no fundo, o que a maioria de nós quer) são, de fato, soluções nas quais podemos crer? Seus conchavos, seus financiadores, seus apoiadores, suas máquinas de fazer dinheiro e mobilização, seus argumentos merecem a nossa insônia e a nossa falta de bom senso para comprometer amizades, sejam estas superficiais ou, até então, inigualáveis?
Neste caldeirão de sentimentos e ressentimentos, o que é de verdade vai ficar, por incrível que pareça, pelo silêncio.
Tenho um grande amigo defensor de causas e pessoas com as quais me decepcionei, de crenças nas quais não mais acredito. Mas, em momento algum, trocamos sequer uma palavra sobre o assunto. Porque não haveria consenso. O nosso respeito ao outro, dando espaço para cada um na rede e na rua, o nosso carinho, o nosso afeto é enormemente maior do que um possível sacolejo na nossa relação. Por isso, depois que domingo passar, é com ele que eu irei, para o resto de nossas vidas, ao cinema, como sempre fizemos. Vida que segue.


12.8.12

Um rei nu para um reino afundado

Imagem extraída do blog do Roberto Leite

Menos de dois meses para as eleições municipais. E a cada dia aumentam minhas elucubrações sobre os critérios para o meu voto a prefeito de Soterópolis. Sim, meus princípios políticos, a esta altura da vida me impedem de votar em branco ou nulo.
Entretanto, talvez este seja o primeiro dos tantos pleitos majoritários que não asseguro de primeira o que desejo. Porque o que desejo está longe de questões ideológico-partidárias que garantiram meu voto outrora. Ou de apostas em planos e propostas concretas e revolucionárias, de continuidade ou contraposição. Ou da confiança em pessoas de caráter e capacidade administrativa na área pública inquestionáveis.
O que desejo agora é um prefeito capaz de tirar Salvador do fundo do poço, que parece não ter fundo. Peço muito? Hoje, "guardada" na cafeteria de um cinema, conversava sobre como viver a cidade tornou-se difícil. Eu, que fazia programa de turista em meu cotidiano me sinto numa ilha, onde não é seguro nem possível usar e compartilhar serviços e equipamentos públicos. Vivemos imobilizados e órfãos. Isso não foi só incompetência de gestão. Foi desamor.
Por isso, após o primeiro debate televisivo resolvi adotar como critério principal de escolha o amor à cidade. Deixei o pragmatismo de lado e me rendi ao romantismo. Votaria naquele que, pelo menos, demonstrasse uma paixão absoluta a ponto de me fazer crer que iria dedicar-se incondicionalmente para possibilitar aos munícipes o resgate da auto-estima, no poço junto com a cidade.
Então vou acompanhando os candidatos: suas agendas, suas posturas, seus discursos, suas ações espontâneas ou roteirizadas e o critério, assim, vai evoluindo para as eliminações. Há prerrogativas: o capital político, os apoiadores e mentores (diz-me com quem andas e eu te direi quem és...), uma certa "garantia" de autonomia administrativa e, por que não dizer, parecer ter colhões.
Ontem, compartilhando essa angústia do meu compromisso político com um ex-militante de esquerda, combatente da ditadura e com uma história de crenças políticas muito parecida com a minha, ele me lançou um novo critério: "penso em votar em um candidato que não se permita errar". Gelei. Ele tem razão e isso agora também faz parte das minhas elucubrações que, de uma só guilhotinada, já cortou duas cabeças na lista dos prefeituráveis, em minha opinião. Uma dessas com o agravante de não transmitir credibilidade na seriedade que tenta impetrar aos seus propósitos e, principalmente, por ter caráter duvidoso, de desrespeito a seus pares. E uma terceira cabeça nem entrou na lista pelo precedente de demagogia crônica. E uma quarta, por me parecer absolutamente inverossímil, um chiste, uma piada.
Logo, de eliminação em eliminação, vejam só a que ponto cheguei: tenho apenas dois candidatos votáveis, dos seis lançados. Acho triste. Triste a falta de opção pela falta de convicção. Triste ter que quebrar a cabeça para encontrar um fio de esperança em um gestor que possa salvar a cidade, em desgraça e, ainda ter firmeza para planeja-la como metrópole que é. E não como província, que parece ser. Vamos ver, no tempo que sobra, o que vem por aí.

25.7.12

O caso Nokia: conquista civil ou retrocesso da Comunicação?


Estamos vivendo neste século o dilema dos limites e da dicotomia entre o bom senso e o exagero. Acreditamos que conquistamos, ainda no século passado o "mundo" e com ele quiçá avanços nas leis de proteção da sociedade, sobretudo a de consumo. O Código de Defesa  do Consumidor no Brasil, por exemplo, é sério e representa de maneira incontestável esta conquista. Ou quase. 
Quase porque a velocidade das coisas e as transformações dos hábitos desta mesma sociedade exigem revisões sobre as leis e as convenções sistematicamente. Como tenho um pé lá, no Século XX e outro cá, vivo e compartilho diariamente conflitos de ordem ética, principalmente, no campo da Comunicação e da Publicidade, só pra falar do que me cabe profissionalmente deste latifúndio.
Daí fui tentar entender essa celeuma envolvendo a ação da Nokia na Web. E como esse espaço aqui é de reflexão, vamos à minha: 
Francamente, acho um retrocesso e uma falta de percepção do que é o ambiente digital. Esta lei caduca e contraditória usada como argumento não cabe nestas circunstâncias que envolve, sobretudo, o relacionamento da marca com seus prospects, que atuam na Internet e nas Redes Sociais num modelo, num modus, num formato que constituiu-se independente da vilania e da tirania do poder do consumo, que, óbvio, existe e tem lá seus truques insanos.
Entidades, como o CONAR e o PROCON, especialmente envolvidos neste episódio, em vez de ameaças de punição e multa, tem que discutir e buscar seus posicionamentos sem o rigor simbólico da correção política, outra conquista que está virando camisa de força. A resposta que devemos ter, de maneira consciente e, sim, legislada é: onde e como se aplicar os princípios e conquistas da Comunicação e da Publicidade quando o hoje já é ontem.
A Nokia não fez nada diferente do que uma estratégia de mídia criativa. Nada além do que uma campanha de expectativa, um teaser, recursos usados há anos pela propaganda mundial convencional.
Acontece que o suporte, o meio (a Internet e as redes sociais), não foram entendidos como meios de comunicação. E dificilmente são. É essa a discussão que precisamos ter!
Se milhões de pessoas se postam todos os dias à frente de uma TV para assistir a uma novela nonsense, das mais inverossímeis já vistas na televisão brasileira como torcedores vendados e, nem por isso se sentem "enganadas", por que a Nokia estaria agindo de má fé com os usuários da Internet ao promover uma ação básica de engajamento, que é o marketing viral?
A Internet é um ambiente comunicacional e, dentro dele, cabem sim, estratégias midiáticas.
Acho, por ora, uma grande miopia. Tenha paciência. A Nokia usou resursos, ao meu ver legítimos, para sua campanha de expectativa do lançamento de um novo produto.
Isso é feito em todo mundo, por grandes marcas. Lembro de uma ação genial de um container que foi colocado nas ruas de Tokio por dias, com toda a ação desde o transporte por navio até a reação das pessoas filmada, viralizada e, depois do buzz causado, o container foi aberto e a surpresa revelada. 
Era o lançamento de um carro com toda pompa e circunstância. E ninguém penalizou ninguém por isso. Isso é ideia criativa na Comunicação, usando ferramentas de promoção e web. 
Qual é o grande problema, então? A apropriação do habitus, como diria Bourdier. O frenesi de compartilhar os vídeos da Nokia nada tem a ver com solidariedade nem cumplicidade emocional ao brodinho que perdeu o amor da vida dele na balada, me façam o favor! Tem a ver com a forma frenética de compartilharmos urgências e chegarmos primeiro em nossas redes sociais. E é nisto que a Comunicação trabalha. 
Se abrirem esta prerrogativa punitiva, é melhor extinguir a profissão.

23.5.12

A loira, o negro, os cães e a caravana

Foto: reprodução publicada no site PortalImprensa

Não conheço essa moça, Mirella Cunha. Nunca a vi atuando, a não ser em duas "entrevistas" através de vídeos no YouTube, ambas para o programa Brasil Urgente, para o qual trabalha (ou trabalhava), na Band-BA. Uma, com os gêmeos da cidade de Mossoró que subtrairam dinheiro da família para passear em Salvador. A outra, a famigerada entrevista da concórdia. Sim, concórdia, porque parece uníssona a crucificação da entrevistadora, que violou os direitos constitucionais de um suposto estuprador, na situação, detido exclusivamente por roubo.
Olhando a performance da moça, a considerei lastimável no exercício da profissão: postura de desdém, péssimo desenvolvimento da pauta, dispersa e desleixada na elaboração das questões, jocosa em sua expressão e linguagem, domínio da língua portuguesa sofrível e, sobretudo, impaciente e debochada na relação com as fontes. E não há dúvida quanto à gravidade da situação em que se postou, de desrespeito ao entrevistado e ao público.
Entretanto, entendo que estão transformando a moça "graduada em uma F qualquer" (imagine se nem diploma tivesse) em algoz de uma situação que vem há muito corroendo o jornalismo decente. E daí que ela é formada em uma "F"? Seu chefe, o apresentador Uziel Bueno é faconiano, formou-se na Faculdade de Comunicação da UFBA, prestigiadíssima, e está pautando sua vida profissional à frente de um programa de "conceito" questionável, popularesco e policialesco, desempenhando um papel tão triste quanto o de sua subordinada. Atrás de Mirella e Uziel há um sistema. Há um sindicato, há uma federação de profissionais, há uma equipe interna que "pensa" o que vai ao ar, há um editor, um diretor, um pauteiro, um coordenador de programação, um empresário dono da emissora, a OAB, o MP, os governos, o escambau. Todos cegos até aqui. Omissos.
Porque o que existe não é um problema da emissora, pontuado neste episódio. Não é um problema da Bahia e, não é puramente, um problema dos profissionais envolvidos na prática deste formato jornalístico. Embora, até a questão de racismo já tenha entrado no jogo dos argumentos, sem o menor cabimento, na minha opinião. O contexto é aquele, seja o meliante azul, preto, amarelo ou vermelho. Essa terra não acaba nunca com essa síndrome. E se ela fosse negra e não loira? Se recusaria a fazer tal papel?
E, também, muito menos é um problema da audiência. Sobre os telespectadores, inclusive, o mínimo que li foi: "pobre gosta é disso". Vejam só. A culpa do descalabro da atividade jornalística, principalmente na área televisiva se resume, neste momento, a Mirella, a loira, e aos pobres da Bahia, que assistem e gostam do programa que ela ajuda a fazer. E agora a repórter acaba de receber uma representação do Ministério Público, além de uma repreensão que fatalmente descambará em sua demissão da Band-BA. Tá certo. Alguém vai pagar o pato. Por que uma profissional como ela foi contratada? Por que foi mantida se, mais cedo ou mais tarde, seria um mau exemplo?
Por muito menos já vi profissionais competentes em redações de verdade serem demitidos sumariamente. Simples: porque é exatamente o jeito de se portar da moça que atende aos objetivos do programa e, portanto, ao sistema onde o que menos importa é o cumprimento das leis, a responsabilidade com o código de ética, a preservação da moral, o compromisso com a verdade e a competência no exercício profissional.
E essa mobilização toda que personaliza a questão e joga pedra com tanta veemência, vai continuar para resgatar a dignidade da profissão, cuja sorte começa pelas faculdades que assinam embaixo dos diplomas desqualificados? Nas redações que contratam estagiários sem-noção em vez de profissionais treinados, com repertório, bom senso e experiência? Ao contrário, os demitem. Nas políticas públicas de comunicação e informação, além de entidades afins, que devem educar e punir quando a ética é jogada no esgoto em nome da garantia da atenção e audiência? Nas entidades classistas imóveis e retardatárias, que só gritam depois que a opinião pública se manifesta, principalmente através das redes sociais? Ou Mirella vai virar o "exemplo", ser banida da profissão, enquanto a caravana passa?

1.11.11

A vida em um dia: o filme colaborativo do YouTube




Mais de um ano após a convocação aos usuários para filmarem trechos de suas vidas, o YouTube disponibiliza "Life in a Day" (A Vida em um Dia), filme de 90 minutos a partir de 4,5 mil horas de gravações organizadas por Kevin Macdonald e Ridley Scott.
O filme rodou festivais mundo a fora e agora pode ser visto gratuitamente no canal de vídeo com 25 legendas disponíveis, incluindo o português.

Um drops com o trailer abaixo. Filme na íntegra no link do título.

23.10.11

O mundo é cão, mas a mídia não precisa ser

Rebeldes e Kadafi morto: foto-souvenir(Saad Shalash/Reuters)

Não sei exatamente onde estava quando as primeiras fotos e vídeos de Kadafi sendo subjugado por rebeldes, mercenários ou supostamente membros do Conselho Nacional de Transição da Líbia começaram a circular pelo Twitter ou pelo Facebook. 
Sei que nos últimos 30 anos, enquanto o ditador barbarizava eu percorria o caminho como profissional de comunicação. E, como tal - repórter, redatora, editora, publicitária, revisora, acompanhei o movimento da mídia: reservado ou histriônico, distante ou contundente, equilibrado ou desbaratado, sobre as notícias do chamado "mundo cão".
O fato é que hoje, assistindo saltarem à mão cheia das redes sociais as fotos horripilantes de Kadafi morto e os vídeos feitos por celulares de sua invocação à misericórdia enquanto seu rosto se desfigurava ao som de uma trilha sonora de tiros, me angustio com a banalidade deste tipo de exposição na cobertura e narrativa dos fatos, jornalística ou amadora.
Vejo sob o mesmo prisma tanto os álbuns de fotos em perfis de adolescentes que nunca souberam antes quem era Muammar al-Gaddafi quanto o sangue que escorre do último vídeo divulgado na primeira página do G1: não são cenas de um mundo cão. O mundo é, ou melhor, está cão. Trata-se, portanto, de um status quo onde a violência, esteja de que lado esteja, não precisa de licença para ser publicizada. Não cabe sequer discutir aqui o perfil dos supostos matadores de Kadafi e sua dissociação de fato, com o povo sofrido da Líbia e com os movimentos genuínos de revolta popular dos últimos oito meses.
Kadafi morreu deste modo sórdido porque colheu o que plantou. Ou não. Há de ser importante e relevante o destino do povo da Líbia, oprimido há mais de quatro décadas, não o trajeto do corpo ou o número de buracos de bala na cabeça de seu algoz, assassinado. Mas é isto que faz a espuma midiática. Resta pouco ou nada a discussão de questões humanísticas ou a análises de especialistas que possam, minimamente, tratar da ordem dos direitos civis, das consequências políticas ou econômicas, dos ganhos sociais da era pós-Kadafi.
No calor da morte do ditador, o G1 chega ao cúmulo de separar frame a frame as partes de um vídeo, não sem antes avisar em quadro do mesmo tamanho que "as cenas são fortes". Tal qual a montagem de um filme macabro. Claro, vê quem quer. E é isso que me preocupa: a avidez da audiência e o descolamento que se forma em fatos como este pelo público consumidor da mídia. 
Estamos selvagens. Voltamos às tribos espetaculosamente. É o espetáculo do corpo de Osama jogado ao mar. É o espetáculo da apresentação do corpo de Kadafi coberto de ferimentos.
Só que agora com todo tipo de aparato tecnológico, para não se perder nada: nem o flagrante que podemos dar, nem a imagem que não se pode deixar passar. E passar adiante, adiante e mais adiante. Onde vamos parar, tenho até medo de supor.

5.12.10

O melhor amigo de um homem leal

Sensacional. Comercial da DDB para a Lotto da Nova Zelândia. Vale a pena ver também os comerciais de 15" que dão continuidade à aventura de Wilson, o cãozinho "vingativo".

18.7.10

40k inova a publicação de ebooks: contos, novelas e ensaios em várias línguas

Primavera italiana. Em um café da manhã em Milão Marco Ghezzi (ex CEO da Apogeo), Marco Ferrario (ex CEO da Sperling & Kupfer) e Giuseppe Granieri (professor e pesquisador em cultura digital da Università di Urbino Carlo Bo)  decidiram fazer algo novo no mercado editorial online.
Os três, também escritores e colaboradores de sites sobre comunicação, vinham há muito tempo acompanhando e discutindo a transição da publicação de livros para o suporte digital. Pensavam em novos formatos para os títulos e na possibilidade de publicá-los em várias línguas.
Em comum a idéia de caracterizar os textos em cerca de quarenta mil caracteres de "narrativa". Assim surgiu o 40k Books, um site que organiza livros de diferentes idiomas e mercados, com proposta colaborativa.

      

Eu presto atenção em tudo que Giuseppe Granieri pensa e faz no mercado editorial on e offline. É um dos meus ídolos acadêmicos e, agora, graças às redes sociais, meu amigo. Conheci o professor Granieri através de Marcos Palacios, que me emprestou La società digitali (2006), leitura obrigatória para quem se interessa pelo comportamento dos usuários da internet.
Desde então leio o que ele produz e acompanho seu movimento como pesquisador. Umanità Accresciuta (2009) é hoje um dos livros de cabeceira, também fundamental para quem estuda as transformações da vida social, afetiva e emocional com o advento da internet e das redes.
O site 40k é resultado de um pensamento inovador sobre uma forma de interação, produção e distribuição de conteúdo cultural. Gostei tanto da idéia que uma troca de e-mails com o professor Granieri para saber mais virou uma pequena estrevista, que achei importante reproduzir aqui. Vejam lá e participem também do projeto. 

10.7.10

Mobile Marketing: conceitos, aplicações e tendências

No título, link para o post no site Intermídias. O tema é parte da ementa da disciplina "Novas Tecnologias em Comunicação", que estou ministrando na Pós-Graduação em Marketing e Publicidade Digital da Faculdade Dois de Julho.
Dinâmico e instigante, o conjunto de possibilidades de ações de branding através de aplicativos nos dispositivos móveis é ainda uma tendência no Brasil, com iniciativas pontuais, mas uma realidade nos Estados Unidos e Europa, que já garante uma fatia interessante da verba destinada à publicidade pelas marcas.
A apresentação do pesquisador Ian Souza, meu convidado para tratar do assunto na sala de aula é recheada de cases interessantes. Um dos meus preferidos é o da Layar para a Mazda, utilizando o QR-code. Vale a pena dar uma conferida:




17.4.10

Escolhas

Sempre me pergunto porque as campanhas de utilidade pública no Brasil minimizam a seriedade do problema ou suas consequências e não canso de repetir este assunto aqui no blog. Esse nosso estigma de país do Carnaval, de gente feliz e saltitante, que bebe para comemorar e para esquecer, com aquele eterno "apesar de" nos deixa - Estado e população - com uma certa vergonha em expor as feridas. Hipocrisia.
Quando falo em feridas, falo no número de vidas que se perdem por falta de atitude. De um lado e de outro. A comunicação dos poderes públicos é sempre  muito discreta e pouco enfática quando se busca a provenção através da educação ou da exposição dos resultados.
E, no mesmo caminho, as campanhas publicitárias são inócuas e indiretas, frias demais para um público que insiste em manter-se com venda nos olhos e não quer testemunhar a crueza que, invariavelmente resulta em mortes precoces e famílias destruídas. "Nunca vai acontecer comigo". Vai, sim.
Um dos problemas recorrentes que são minimizados é o de mortes no trânsito, principalmente pelo uso de alcool e drogas. As estatísticas continuam apontando índices alarmantes.
Este comercial da TAC (Transport Accident Commission) teve um efeito drástico na Inglaterra. É do ano passado e só agora recebi na íntegra, via e-mail de Marcos Palacios:



As imagens não perdoam. A trilha do REM comove. A edição abre as feridas de uma forma que pode parecer dura e agressiva à sociedade. Não poupa ninguém. Nem os culpados nem as vítimas. Estão ali todos os perfis representados.
Depois desta campanha diz-se que 40% da população da Inglaterra deixou de usar drogas e se alcoolizar nas datas comemorativas, pelo menos. É um dado exagerado? Talvez. Mas o impacto do filme é duradouro e é isso que importa, independente do lugar ocupado por quem se vê nas muitas histórias.
Enquanto isso, no Brasil ainda estamos na era das campanhas lúdicas, da folclorização e do humor como argumentos para se mostrar algo tão sério. Comparemos. Por aqui vamos ouvindo cavaquinhos, matando, morrendo e perdendo.

5.4.10

As novas práticas de consumo

Um artigo de Elisa Garcia na Revista Consumidor Moderno expõe com objetividade o novo cenário da cultura de consumo no país. O mercado de varejo sofreu uma transformação nos últimos 15 anos, onde a praticidade das compras se dá, principalmente, pela facilidade e segurança para as transações. A nova configuração foi, basicamente, impulsionada por três segmentos que cresceram muito no período: os investimentos no mercado de cartões e os acessos à internet e à telefonia celular.
O destaque das transformações foi a mudança do perfil do consumidor de baixa renda. Com a estabilidade da moeda e acesso ao crédito, a pirâmide socioeconômica se inverteu e as classes C, D e E estabeleceram novas práticas de consumo.
Leitura interessante.

2.2.10

No banheiro


Ontem à noite na primeira oficina da séria "Língua Solta", promovida pela agência baiana Engenhonovo aos alunos de Jornalismo, Produção Cultural e Publicidade, o publicitário Márcio Viana, sócio-diretor da Plural Comunicação mostrou vários cases interessantes sobre formatos inusitados de peças de comunicação às quais não podemos definir como "publicitárias" ou "promocionais".
Na verdade sempre defendi os conceitos de comunicação integrada e cultura de planejamento criativo para inserir uma boa idéia - persuasiva, sim - num mesmo guarda-chuva e impactar o consumidor.
Mas o que chamou a atenção - e Márcio brincou muito com isso - foi o número de peças criadas para o banheiro. Para marcas e produtos afins ou não. O fato é que o momento do uso do banheiro talvez seja um momento de concentração especial ou, na linguagem do Marketing Promocional, de pegar o potencial consumidor "desarmado". Oooops...
Bom, resolvi contribuir para a série "No banheiro" com este filme genial em animação, da TBWA de Paris, de combate a Aids na defesa do uso do preservativo, produzido para o Aides Date.
Divertido, que usa o banheiro como cenário e dá o seu recado muito bem. Divirtam-se e previnam-se.

24.1.10

Atitude contra a dengue




Bacana o filme da agência Tempo para a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) para o combate à dengue. Já comentei aqui sobre campanhas publicitárias de interesse público, em especial as que precisam da participação ou ação da população. Vejam o post com o vídeo do professor Eduardo Camilo, da Universidade da Beira Interior, Portugal.
Penso que essas campanhas são sempre muito cautelosas, muito comedidas ao corresponsabilizarem o público pela falta de ação e consequente resultado. Sobretudo o dos números dos casos de dengue no país, crescentes a cada ano. Na Bahia, então, nem se fala.
Esse filme fica no meio do caminho. O conceito de comandar a "Atitude" para o público é bem assertivo. Mas falta força. A atriz Tânia Toko, a Neusão do filme e série Ó Paí, ó faria bem -  e deveria - o papel mais impositivo, mais imperativo, que é necessário.
Ao contrário da performance da sua personagem na tela, ela é só sorriso. Tá maneira demais. As imagens limpinhas, tudo muito arrumado. Tudo no segundo tempo da Atitude do cidadão em fazer o papel dele em casa e na sua comunidade.
Ok. Podem dizer que todo mundo já sabe o que tem que ser feito. Mas nem todos sabem quantos morrem a cada ano e nem conviveram de perto com o contágio, tão fácil de ser evitado.
Mas não nego que é um bom ensaio. O texto fala em morte, o que já é um avanço. Mesmo com Tânia toda sorridente. Mas fala. E isso é importante. E, ainda, o infame trocadilho: "quem tem que morrer é o mosquito, não você", ou coisa parecida. Tá valendo.

16.12.09

Uso de suportes digitais incrementa cultura na periferia


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Vídeo Player by Kaltura Entrevista: Gabriela Agustini.

Acabo de ler (com atraso) a edição de novembro da revista Época Negócios comprada na livraria por conta da reportagem de capa: A classe média que você precisa conhecer.
O conteúdo descreve uma experiência de imersão dos repórteres Marcos Todeschini e Alexa Salomão durante quatro meses na periferia de São Paulo, convivendo com famílias da Classe C.
O retrato é uma quebra de diversos paradigmas. A nova classe média, cerca de 30 milhões de brasileiros e que, em 2009 será responsável por R$ 620 bilhões em compras, segundo as pesquisas qualitativas  apresentou os seguintes hábitos: prefere o custo-benenfício ao preço baixo; guarda dinheiro para o lazer, priorizando as viagens pelo Brasil; não arrisca a inadimplência; é feliz na comunidade onde vive e está conectada à Internet, usando as lan houses como ponto de encontro e sociabilização.
No Twitter, me deparo com a dica de uma entrevista em vídeo de Heloisa Buarque de Hollanda, que disponibilizo neste post, realizada durante o Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital Brasileira onde a pesquisadora, que trabalha com cultura de periferia e cultura digital vai ao encontro das conclusões da revista e fala do papel da Internet em proporcionar espaço para o discurso da periferia.
Heloísa, diretora do Portal Literal e professora da teoria crítica da cultura da UFRJ, aponta que as duas culturas - digital e da periferia - se cruzam positivamente, estabelecendo um novo tipo de comportamento, associado ao entretenimento e às redes sociais.
 A Internet está fomentando a leitura e ampliando a visibilidade para as comunidades através de blogs, por exemplo, que documentam histórias reais, cotidianas, sustentadas pelos vídeos, fotos e textos postados pelas próprias comunidades.
Do mesmo modo que observado pelos jornalistas da Época, o fenômeno das lan houses é citado por Heloísa. "A lan house é um ponto de convivência muito importante", diz.
As conclusões da reportagem da Época Negócios e a entrevista de Heloísa Buarque de Hollanda convergem para o mesmo ponto que tenho dito por aqui. O consumo no Brasil, decididamente, mudou de mãos.
E a Internet e outros suportes digitais dão impulso a hábitos das classes populares dentro do especto social anteriormente inatingíveis, como o da leitura. E isso é muito bom.

13.12.09

Uso do crédito pela classe C leva Bancos aos bairros populares


Foto: autoria desconhecida, extraída de joaokepler.blog.br


Quando fiz minha pesquisa de campo para o projeto de Mestrado, investigando o consumo do Comércio Eletrônico pela Classe C, uma das questões que mais me despertavam curiosidade era a forma de pagamento.
Embora já tivesse informações sobre o incremento do uso do cartão de crédito junto ao consumidor das classes populares, acreditava que a confiança em um mediador "sem rosto", como é o caso da Internet, provocava outro tipo de prática e que os boletos de pagamento fossem a preferência.
No campo, a realidade é outra. O cartão de crédito é utilizado com cuidado, mas sem medo. Dos oito casos que estudei, apenas um dos usuários do E-Commerce costumava fazer o pagamento por boleto, muito mais pela desconfiança na logística do que no sistema em si, que usava normalmente em suas compras nas lojas físicas.
A matéria publicada hoje pelo G1 vai ao encontro dessa lógica. Para a classe C, crédito é crédito, sem diferenciação para classes A, B, C ou D.
As práticas de consumo cada vez mais aproximam uma classe da outra e o aumento do poder de compra das classes populares sacramentam a mobilidade da pirâmide social, hoje, muito mais de ordem econômica que social - cultura e conhecimento ainda fazem a diferença, embora sejam aspirações prioritárias daqueles que saíram da base da pirâmide.
Os bancos já perceberam o que constatei no campo, mesmo em casos específicos: a Classe C rechaça o rótulo da pobreza e quer ser tratada no mercado do mesmo modo que as classes que têm maior faixa de renda.
Porque vale o que cabe no bolso e, em geral, o índice de inadimplência é baixo quando se trata de crédito. O nome limpo, para estas pessoas é um patrimônio. Os bancos estão indo às comuinidades, se aproximando dos moradores com serviços e, principalmente, com o cartão de crédito, incluindo os Private Labels (os cartões de lojas, também em ascenção e adesão garantida).
Isto me lembra um dos meus entrevistados, que teve uma franquia de um banco de serviços e, sem pesquisar o mercado instalou um ponto em um dos principais shoppings da cidade, além de alguns  outros pontos em bairros populares.
Enquanto nos bairros havia fila nas portas para pagamento das contas, no shopping a loja dava prejuízo, até que veio a falência, pelo alto investimento, que não deu retorno a médio prazo e pelas despesas com o caríssimo condomínio e outras taxas.
Também morador de um bairro popular, ele entendeu então que o movimento de mercado - compras e serviços - se dava sem que, necessariamente, a população precisasse se locomover pra outro ambiente, dando preferência aos empreendedores locais, por conveniência ou confiança na vizinhança.
Sem dúvida, há uma classe com potencial de compra que cresce, tanto pelo aumento do poder aquisitivo dos mais "pobres", sejam pessoas físicas ou pequenos empreendedores, quanto pela estagnação ou declínio daqueles que pertenciam a classes mais altas e, que hoje, formam no Brasil uma classe média substancial, que se comporta mimeticamente quando se trata de consumo.
As empresas e corporações que ignorarem este fenômeno estarão fora da lógica do mercado.