25.7.12

O caso Nokia: conquista civil ou retrocesso da Comunicação?


Estamos vivendo neste século o dilema dos limites e da dicotomia entre o bom senso e o exagero. Acreditamos que conquistamos, ainda no século passado o "mundo" e com ele quiçá avanços nas leis de proteção da sociedade, sobretudo a de consumo. O Código de Defesa  do Consumidor no Brasil, por exemplo, é sério e representa de maneira incontestável esta conquista. Ou quase. 
Quase porque a velocidade das coisas e as transformações dos hábitos desta mesma sociedade exigem revisões sobre as leis e as convenções sistematicamente. Como tenho um pé lá, no Século XX e outro cá, vivo e compartilho diariamente conflitos de ordem ética, principalmente, no campo da Comunicação e da Publicidade, só pra falar do que me cabe profissionalmente deste latifúndio.
Daí fui tentar entender essa celeuma envolvendo a ação da Nokia na Web. E como esse espaço aqui é de reflexão, vamos à minha: 
Francamente, acho um retrocesso e uma falta de percepção do que é o ambiente digital. Esta lei caduca e contraditória usada como argumento não cabe nestas circunstâncias que envolve, sobretudo, o relacionamento da marca com seus prospects, que atuam na Internet e nas Redes Sociais num modelo, num modus, num formato que constituiu-se independente da vilania e da tirania do poder do consumo, que, óbvio, existe e tem lá seus truques insanos.
Entidades, como o CONAR e o PROCON, especialmente envolvidos neste episódio, em vez de ameaças de punição e multa, tem que discutir e buscar seus posicionamentos sem o rigor simbólico da correção política, outra conquista que está virando camisa de força. A resposta que devemos ter, de maneira consciente e, sim, legislada é: onde e como se aplicar os princípios e conquistas da Comunicação e da Publicidade quando o hoje já é ontem.
A Nokia não fez nada diferente do que uma estratégia de mídia criativa. Nada além do que uma campanha de expectativa, um teaser, recursos usados há anos pela propaganda mundial convencional.
Acontece que o suporte, o meio (a Internet e as redes sociais), não foram entendidos como meios de comunicação. E dificilmente são. É essa a discussão que precisamos ter!
Se milhões de pessoas se postam todos os dias à frente de uma TV para assistir a uma novela nonsense, das mais inverossímeis já vistas na televisão brasileira como torcedores vendados e, nem por isso se sentem "enganadas", por que a Nokia estaria agindo de má fé com os usuários da Internet ao promover uma ação básica de engajamento, que é o marketing viral?
A Internet é um ambiente comunicacional e, dentro dele, cabem sim, estratégias midiáticas.
Acho, por ora, uma grande miopia. Tenha paciência. A Nokia usou resursos, ao meu ver legítimos, para sua campanha de expectativa do lançamento de um novo produto.
Isso é feito em todo mundo, por grandes marcas. Lembro de uma ação genial de um container que foi colocado nas ruas de Tokio por dias, com toda a ação desde o transporte por navio até a reação das pessoas filmada, viralizada e, depois do buzz causado, o container foi aberto e a surpresa revelada. 
Era o lançamento de um carro com toda pompa e circunstância. E ninguém penalizou ninguém por isso. Isso é ideia criativa na Comunicação, usando ferramentas de promoção e web. 
Qual é o grande problema, então? A apropriação do habitus, como diria Bourdier. O frenesi de compartilhar os vídeos da Nokia nada tem a ver com solidariedade nem cumplicidade emocional ao brodinho que perdeu o amor da vida dele na balada, me façam o favor! Tem a ver com a forma frenética de compartilharmos urgências e chegarmos primeiro em nossas redes sociais. E é nisto que a Comunicação trabalha. 
Se abrirem esta prerrogativa punitiva, é melhor extinguir a profissão.

23.5.12

A loira, o negro, os cães e a caravana

Foto: reprodução publicada no site PortalImprensa

Não conheço essa moça, Mirella Cunha. Nunca a vi atuando, a não ser em duas "entrevistas" através de vídeos no YouTube, ambas para o programa Brasil Urgente, para o qual trabalha (ou trabalhava), na Band-BA. Uma, com os gêmeos da cidade de Mossoró que subtrairam dinheiro da família para passear em Salvador. A outra, a famigerada entrevista da concórdia. Sim, concórdia, porque parece uníssona a crucificação da entrevistadora, que violou os direitos constitucionais de um suposto estuprador, na situação, detido exclusivamente por roubo.
Olhando a performance da moça, a considerei lastimável no exercício da profissão: postura de desdém, péssimo desenvolvimento da pauta, dispersa e desleixada na elaboração das questões, jocosa em sua expressão e linguagem, domínio da língua portuguesa sofrível e, sobretudo, impaciente e debochada na relação com as fontes. E não há dúvida quanto à gravidade da situação em que se postou, de desrespeito ao entrevistado e ao público.
Entretanto, entendo que estão transformando a moça "graduada em uma F qualquer" (imagine se nem diploma tivesse) em algoz de uma situação que vem há muito corroendo o jornalismo decente. E daí que ela é formada em uma "F"? Seu chefe, o apresentador Uziel Bueno é faconiano, formou-se na Faculdade de Comunicação da UFBA, prestigiadíssima, e está pautando sua vida profissional à frente de um programa de "conceito" questionável, popularesco e policialesco, desempenhando um papel tão triste quanto o de sua subordinada. Atrás de Mirella e Uziel há um sistema. Há um sindicato, há uma federação de profissionais, há uma equipe interna que "pensa" o que vai ao ar, há um editor, um diretor, um pauteiro, um coordenador de programação, um empresário dono da emissora, a OAB, o MP, os governos, o escambau. Todos cegos até aqui. Omissos.
Porque o que existe não é um problema da emissora, pontuado neste episódio. Não é um problema da Bahia e, não é puramente, um problema dos profissionais envolvidos na prática deste formato jornalístico. Embora, até a questão de racismo já tenha entrado no jogo dos argumentos, sem o menor cabimento, na minha opinião. O contexto é aquele, seja o meliante azul, preto, amarelo ou vermelho. Essa terra não acaba nunca com essa síndrome. E se ela fosse negra e não loira? Se recusaria a fazer tal papel?
E, também, muito menos é um problema da audiência. Sobre os telespectadores, inclusive, o mínimo que li foi: "pobre gosta é disso". Vejam só. A culpa do descalabro da atividade jornalística, principalmente na área televisiva se resume, neste momento, a Mirella, a loira, e aos pobres da Bahia, que assistem e gostam do programa que ela ajuda a fazer. E agora a repórter acaba de receber uma representação do Ministério Público, além de uma repreensão que fatalmente descambará em sua demissão da Band-BA. Tá certo. Alguém vai pagar o pato. Por que uma profissional como ela foi contratada? Por que foi mantida se, mais cedo ou mais tarde, seria um mau exemplo?
Por muito menos já vi profissionais competentes em redações de verdade serem demitidos sumariamente. Simples: porque é exatamente o jeito de se portar da moça que atende aos objetivos do programa e, portanto, ao sistema onde o que menos importa é o cumprimento das leis, a responsabilidade com o código de ética, a preservação da moral, o compromisso com a verdade e a competência no exercício profissional.
E essa mobilização toda que personaliza a questão e joga pedra com tanta veemência, vai continuar para resgatar a dignidade da profissão, cuja sorte começa pelas faculdades que assinam embaixo dos diplomas desqualificados? Nas redações que contratam estagiários sem-noção em vez de profissionais treinados, com repertório, bom senso e experiência? Ao contrário, os demitem. Nas políticas públicas de comunicação e informação, além de entidades afins, que devem educar e punir quando a ética é jogada no esgoto em nome da garantia da atenção e audiência? Nas entidades classistas imóveis e retardatárias, que só gritam depois que a opinião pública se manifesta, principalmente através das redes sociais? Ou Mirella vai virar o "exemplo", ser banida da profissão, enquanto a caravana passa?

1.11.11

A vida em um dia: o filme colaborativo do YouTube




Mais de um ano após a convocação aos usuários para filmarem trechos de suas vidas, o YouTube disponibiliza "Life in a Day" (A Vida em um Dia), filme de 90 minutos a partir de 4,5 mil horas de gravações organizadas por Kevin Macdonald e Ridley Scott.
O filme rodou festivais mundo a fora e agora pode ser visto gratuitamente no canal de vídeo com 25 legendas disponíveis, incluindo o português.

Um drops com o trailer abaixo. Filme na íntegra no link do título.